Ontem vi uma menina pequenina, franzina e bonita. Era
esperta e falava como se não houvesse amanha entre outros meninos e meninas,
mesmo não sabendo certas palavras, não as articulando. Quando olhei para ela...
Phiuu! Tinha a certeza de que era a menina mais bonita da sua idade, de que
tinha a carinha mais bonita da sua idade, com aqueles caracóis loirinhos e
reluzentes que pareciam puro ouro amarelo, pura preciosidade. Não os cabelos,
mas sim a menina. Era tão parecida contigo. Talvez tenha sido por isso que eu
me apaixonei por ela. Talvez tenha sido por isso que, ao vê-la, não tenha visto
mais nada em meu redor, não tenha sentido o sol de Agosto a bater-me nas costas,
ou ate mesmo a brisa fresca, momentânea e rara da praia. Senti apenas o meu deslumbre
por ela, apenas a felicidade de a ter encontrado. Assim que me viu, abraçou-me.
Não me perguntes o porquê pois eu não to saberei esclarecer. Parou a sua
brincadeira, largou o seu ilustrado balde e a sua pá cor-de-rosa aos pés das
outras crianças, começou a correr em minha direcção e, ao chegar ao pé de mim, parou.
Num incrédulo instante, dei conta que me abraçara, assim, do nada, sem motivo
ou razão direta e explícita. Apertou-me com tamanha força que nem respirar
conseguia, nem pequenas golfadas de ar, miseras inspirações. Ao largar-me, senti
que reunira todas as suas forças e seus sentimentos no único beijo que deu na
minha cara. Tao forte! Com uma boca tão pequenina senti que me ofereceu um
mundo inteiro, apenas e somente com um dos seus beijos inocentes. De repente
ouvi a sua mãe a chamá-la. Margarida era o seu nome. O nome de uma verdadeira Princesa.
Por agora, era apenas uma Infanta, uma pequena Infanta. A mãe pegou-a pela mão,
tirou-lhe uma réstia de areia que tinha nos braços e nas pernas e pediu-me
desculpa pela filha, envergonhada. Eu sorri. A minha resposta foi simplesmente
um sorriso sincero. Eu acenei de despedida à menina. Ela e a mãe desapareceram
pelo meio de todos aqueles guarda-sóis e essa foi a primeira e última vez que
vi a Margarida.
Quem me dera que a minha filha fosse assim. Quer dizer, a NOSSA.