sexta-feira, 19 de julho de 2013



Verão de 2013


Oito da manhã e já se vê o sol no imenso céu limpo, vermelho e rezingão, chateando-nos a todos com este calor tremendo, preparando-nos para mais um dia soalheiro. Aqui ando eu, neste meu horário rotineiro de verão. Acordo. Levanto-me. Tomo banho de água fria, bem fresquinha, gelada, para acordar. Acreditem que às oito da manhã um banho gélido é muito reconfortante! Como sempre, abro as janelas para deixar a claridade diurna entrar dentro do meu quarto. Eu moro numa vivenda, germinada, uma casa simples. Dois andares. Como todas as outras casas é humilde e conquistada devido ao trabalho dos meus pais, comprada com dinheiro suado. Como todas as outras casas é um refúgio, o refúgio da minha família, é o nosso lar. Bem decorada e moderna, com algumas esculturas e muitas flores, coloridas, vivas. As paredes são brancas, cheias de quadros, retratos e bordados “ponto-cruz” que a minha mãe tanto gosta e admira. Quando se entra pelo corredor dentro sente-se como que uma tranquilidade, uma paz. Não digo isto por ser a minha casa, mas sim porque é o que realmente se sente. O meu quarto é azul. É o meu esconderijo, o meu buraco, a minha toca. É o meu mundo, sim! É onde muita coisa acontece e onde se pensa e se reflecte sobre o que se fez, o que se devia ter feiro, o que se disse e o que se devia ter dito. Da janela da divisão, para além da luz do dia, entrava também um ruído estranho, que não era habitual notar nas minhas rotinas matinais. Cheguei-me à varanda e olhei para a rua. Ali estava, sentada e encostada a um muro totalmente branco, sem uma única mancha, num pranto indescritível. Tentava-se esconder, enterrando a sua cabeça entre os joelhos flectidos. Consegui ver-lhe os olhos. Verdes. Contavam uma história tão triste, deixavam transparecer uma dor tão profunda que quase a sentia como minha. Quando dei por mim já estava à sua beira. Quão a minha presença era apreciada! Ela levanta-se, envergonhada, deixando escapar um sorriso verdadeiro. Como os seus olhos eram brilhantes, mas um brilhozinho de inocência que me fez sentir bem-vindo.  De repente, vindo do nada e de uma natureza repentina e incontrolável, um abraço. Um abraço tão apertado que me deixava sem uma única lufada do ar quente e abafado que sentíamos. Senti que a conhecia. Senti que não era a primeira vez que sentia aqueles braços a minha volta, aquele carinho e aquela ternura, aquele cheiro, que me era familiar. Estáticos. Sinto-me grato por este gesto de agradecimento e deixo-me corar. As minhas bochechas nunca estiveram tão quentes e tão vermelhas. Frente a frente, sem trocar uma única palavra, olhou-me nos olhos e eu retribuí com um olhar nos olhos dela, onde me perdi por uns instantes.

-Obrigada! – disse-me, um pouco mais feliz e aliviada, quebrando o silencio que se instaurara na rua.

Levantou-se uma brisa leve, que correu jovial, contagiando tudo o que encontrava. A rapariga sorri uma outra vez – como era lindo aquele sorriso branco e reluzente que quase parecia marfim; aqueles cabelos loiros a dançarem ao vento, iluminados pela luz do sol, reluzindo um brilho intenso e dourado; aquela face lívida e frágil que começava agora a tomar cor.

- Como te chamas? – pergunto-lhe eu envolvido em tamanha curiosidade. – Não sei o teu nome mas sinto que te conheço tão bem, como conhece a terra o individuo que cria, como conhece Pessoa todos os seus heterónimos.
Soltou uma última gargalhada e, num gesto simples e calmo, encostou os seus lábios aos meus. Aí sim, percebi que a conhecia. Aí sim, reconheci aquele cheiro, aqueles lábios molhados e tenros tocarem os meus. Era a rapariga que mais amava neste mundo, à qual nunca faltei ao seu rendez-vous. Era a rapariga que já conhecera há muito e que nunca me arrependera de a ter conhecido. Rapariga humilde, simples e bela por quem me apaixonei há uns anos. Rapariga simpática, doce e dócil, com quem o tempo parecia correr enquanto tentávamos andar contra ele. Rapariga perfeita cujos defeitos não eram inexistentes e eram bem únicos, o que a tornava única. Se pensarem bem, meus caros, não são as qualidades e os “pontos a favor” que nos tornam únicos, mas sim os nossos defeitos, pois é devido a estes que nos diferenciamos das outras pessoas. Rapariga que errava, que sabia errar e que reconhecia os seus erros perfeitamente humanos e naturais. Como já disse, há muito que a conheci e há muito que me apaixonei por esta pessoa, mas também já há algum tempo que não a via ou ouvia falar dela. Morto o beijo, passa-me a sua mão na cara, despede-se e vai-se embora. Vejo-a a ir-se – mais uma vez – e a desaparecer na imensa claridade no fundo da rua. Volto costas rumo ao banho que ficou pendente, entretanto. Vou e penso «Porquê aquele pranto? Há algo errado nisto… Bem, ainda bem que pude ajudar e fazê-la alegrar-se. Ainda bem que ela sabia que eu a podia ajudar». E fiquei orgulhoso por isso. Do cimo das escadas olhei uma última vez para o fundo da rua e reparei que ela ainda ali estava. Parecia que estava envolta de uma aura cinzenta, uma aura pesada, perturbada e duvidosa. Pensei que eram os meus óculos que estavam sujos por isso peguei neles, limpei-os à minha camisola já um pouco suada e voltei a pô-los. Com uma reacção triste a vi, de mão dada. Um outro rapaz. De cabeça baixa, volto para dentro, retomando o que estava disposto a fazer naquela manhã que parecia normal.

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