Verão de 2013
Oito da manhã e já se vê o sol no imenso céu limpo, vermelho
e rezingão, chateando-nos a todos com este calor tremendo, preparando-nos para
mais um dia soalheiro. Aqui ando eu, neste meu horário rotineiro de verão.
Acordo. Levanto-me. Tomo banho de água fria, bem fresquinha, gelada, para
acordar. Acreditem que às oito da manhã um banho gélido é muito reconfortante!
Como sempre, abro as janelas para deixar a claridade diurna entrar dentro do
meu quarto. Eu moro numa vivenda, germinada, uma casa simples. Dois andares.
Como todas as outras casas é humilde e conquistada devido ao trabalho dos meus
pais, comprada com dinheiro suado. Como todas as outras casas é um refúgio, o refúgio
da minha família, é o nosso lar. Bem decorada e moderna, com algumas esculturas
e muitas flores, coloridas, vivas. As paredes são brancas, cheias de quadros,
retratos e bordados “ponto-cruz” que a minha mãe tanto gosta e admira. Quando
se entra pelo corredor dentro sente-se como que uma tranquilidade, uma paz. Não
digo isto por ser a minha casa, mas sim porque é o que realmente se sente. O
meu quarto é azul. É o meu esconderijo, o meu buraco, a minha toca. É o meu
mundo, sim! É onde muita coisa acontece e onde se pensa e se reflecte sobre o
que se fez, o que se devia ter feiro, o que se disse e o que se devia ter dito.
Da janela da divisão, para além da luz do dia, entrava também um ruído
estranho, que não era habitual notar nas minhas rotinas matinais. Cheguei-me à
varanda e olhei para a rua. Ali estava, sentada e encostada a um muro
totalmente branco, sem uma única mancha, num pranto indescritível. Tentava-se
esconder, enterrando a sua cabeça entre os joelhos flectidos. Consegui ver-lhe
os olhos. Verdes. Contavam uma história tão triste, deixavam transparecer uma
dor tão profunda que quase a sentia como minha. Quando dei por mim já estava à
sua beira. Quão a minha presença era apreciada! Ela levanta-se, envergonhada,
deixando escapar um sorriso verdadeiro. Como os seus olhos eram brilhantes, mas
um brilhozinho de inocência que me fez sentir bem-vindo. De repente, vindo do nada e de uma natureza
repentina e incontrolável, um abraço. Um abraço tão apertado que me deixava sem
uma única lufada do ar quente e abafado que sentíamos. Senti que a conhecia.
Senti que não era a primeira vez que sentia aqueles braços a minha volta,
aquele carinho e aquela ternura, aquele cheiro, que me era familiar. Estáticos.
Sinto-me grato por este gesto de agradecimento e deixo-me corar. As minhas
bochechas nunca estiveram tão quentes e tão vermelhas. Frente a frente, sem
trocar uma única palavra, olhou-me nos olhos e eu retribuí com um olhar nos olhos
dela, onde me perdi por uns instantes.
-Obrigada! – disse-me, um pouco mais feliz e aliviada,
quebrando o silencio que se instaurara na rua.
Levantou-se uma brisa leve, que correu jovial, contagiando
tudo o que encontrava. A rapariga sorri uma outra vez – como era lindo aquele
sorriso branco e reluzente que quase parecia marfim; aqueles cabelos loiros a
dançarem ao vento, iluminados pela luz do sol, reluzindo um brilho intenso e
dourado; aquela face lívida e frágil que começava agora a tomar cor.
- Como te chamas? – pergunto-lhe eu envolvido em tamanha
curiosidade. – Não sei o teu nome mas sinto que te conheço tão bem, como conhece a terra o individuo
que cria, como conhece Pessoa todos os seus heterónimos.
Soltou uma última gargalhada e, num gesto simples e
calmo, encostou os seus lábios aos meus. Aí sim, percebi que a conhecia. Aí
sim, reconheci aquele cheiro, aqueles lábios molhados e tenros tocarem os meus.
Era a rapariga que mais amava neste mundo, à qual nunca faltei ao seu
rendez-vous. Era a rapariga que já conhecera há muito e que nunca me
arrependera de a ter conhecido. Rapariga humilde, simples e bela por quem me
apaixonei há uns anos. Rapariga simpática, doce e dócil, com quem o tempo
parecia correr enquanto tentávamos andar contra ele. Rapariga perfeita cujos
defeitos não eram inexistentes e eram bem únicos, o que a tornava única. Se
pensarem bem, meus caros, não são as qualidades e os “pontos a favor” que nos
tornam únicos, mas sim os nossos defeitos, pois é devido a estes que nos
diferenciamos das outras pessoas. Rapariga que errava, que sabia errar e que
reconhecia os seus erros perfeitamente humanos e naturais. Como já disse, há
muito que a conheci e há muito que me apaixonei por esta pessoa, mas também já
há algum tempo que não a via ou ouvia falar dela. Morto o beijo, passa-me a sua
mão na cara, despede-se e vai-se embora. Vejo-a a ir-se – mais uma vez – e a
desaparecer na imensa claridade no fundo da rua. Volto costas rumo ao banho que
ficou pendente, entretanto. Vou e penso «Porquê aquele pranto? Há algo errado
nisto… Bem, ainda bem que pude ajudar e fazê-la alegrar-se. Ainda bem que ela
sabia que eu a podia ajudar». E fiquei orgulhoso por isso. Do cimo das escadas
olhei uma última vez para o fundo da rua e reparei que ela ainda ali estava.
Parecia que estava envolta de uma aura cinzenta, uma aura pesada, perturbada e
duvidosa. Pensei que eram os meus óculos que estavam sujos por isso peguei
neles, limpei-os à minha camisola já um pouco suada e voltei a pô-los. Com uma reacção triste a vi, de mão dada. Um outro rapaz. De cabeça baixa, volto para
dentro, retomando o que estava disposto a fazer naquela manhã que parecia
normal.
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