Se com simples olhos meus
nao vi seu ser em olhos tão belos,
quem pensa entao sequer em vê-los
e conhecer algo que nao é dos seus?
Pensei, outrora, em poder ter-vos,
mais do que a vida e ser todo vosso.
Percebo agora a loucura que roço.
Leio-a nas cartas que pensei em escrever-vos.
No entanto, por ser tao humano como sou,
me perdoo por errar de tal maneira,
pagando preço tao desonesto.
Recordo-me, pois, do olhar que me conquistou
com cujo efeito me perdi em tamanha cegueira,
fazendo hoje com que desconfie de tudo o resto.
Amor para quem respeita. Respeito para quem ama.
"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir." Fernando Pessoa
terça-feira, 1 de outubro de 2013
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Verão de 2013
Oito da manhã e já se vê o sol no imenso céu limpo, vermelho
e rezingão, chateando-nos a todos com este calor tremendo, preparando-nos para
mais um dia soalheiro. Aqui ando eu, neste meu horário rotineiro de verão.
Acordo. Levanto-me. Tomo banho de água fria, bem fresquinha, gelada, para
acordar. Acreditem que às oito da manhã um banho gélido é muito reconfortante!
Como sempre, abro as janelas para deixar a claridade diurna entrar dentro do
meu quarto. Eu moro numa vivenda, germinada, uma casa simples. Dois andares.
Como todas as outras casas é humilde e conquistada devido ao trabalho dos meus
pais, comprada com dinheiro suado. Como todas as outras casas é um refúgio, o refúgio
da minha família, é o nosso lar. Bem decorada e moderna, com algumas esculturas
e muitas flores, coloridas, vivas. As paredes são brancas, cheias de quadros,
retratos e bordados “ponto-cruz” que a minha mãe tanto gosta e admira. Quando
se entra pelo corredor dentro sente-se como que uma tranquilidade, uma paz. Não
digo isto por ser a minha casa, mas sim porque é o que realmente se sente. O
meu quarto é azul. É o meu esconderijo, o meu buraco, a minha toca. É o meu
mundo, sim! É onde muita coisa acontece e onde se pensa e se reflecte sobre o
que se fez, o que se devia ter feiro, o que se disse e o que se devia ter dito.
Da janela da divisão, para além da luz do dia, entrava também um ruído
estranho, que não era habitual notar nas minhas rotinas matinais. Cheguei-me à
varanda e olhei para a rua. Ali estava, sentada e encostada a um muro
totalmente branco, sem uma única mancha, num pranto indescritível. Tentava-se
esconder, enterrando a sua cabeça entre os joelhos flectidos. Consegui ver-lhe
os olhos. Verdes. Contavam uma história tão triste, deixavam transparecer uma
dor tão profunda que quase a sentia como minha. Quando dei por mim já estava à
sua beira. Quão a minha presença era apreciada! Ela levanta-se, envergonhada,
deixando escapar um sorriso verdadeiro. Como os seus olhos eram brilhantes, mas
um brilhozinho de inocência que me fez sentir bem-vindo. De repente, vindo do nada e de uma natureza
repentina e incontrolável, um abraço. Um abraço tão apertado que me deixava sem
uma única lufada do ar quente e abafado que sentíamos. Senti que a conhecia.
Senti que não era a primeira vez que sentia aqueles braços a minha volta,
aquele carinho e aquela ternura, aquele cheiro, que me era familiar. Estáticos.
Sinto-me grato por este gesto de agradecimento e deixo-me corar. As minhas
bochechas nunca estiveram tão quentes e tão vermelhas. Frente a frente, sem
trocar uma única palavra, olhou-me nos olhos e eu retribuí com um olhar nos olhos
dela, onde me perdi por uns instantes.
-Obrigada! – disse-me, um pouco mais feliz e aliviada,
quebrando o silencio que se instaurara na rua.
Levantou-se uma brisa leve, que correu jovial, contagiando
tudo o que encontrava. A rapariga sorri uma outra vez – como era lindo aquele
sorriso branco e reluzente que quase parecia marfim; aqueles cabelos loiros a
dançarem ao vento, iluminados pela luz do sol, reluzindo um brilho intenso e
dourado; aquela face lívida e frágil que começava agora a tomar cor.
- Como te chamas? – pergunto-lhe eu envolvido em tamanha
curiosidade. – Não sei o teu nome mas sinto que te conheço tão bem, como conhece a terra o individuo
que cria, como conhece Pessoa todos os seus heterónimos.
Soltou uma última gargalhada e, num gesto simples e
calmo, encostou os seus lábios aos meus. Aí sim, percebi que a conhecia. Aí
sim, reconheci aquele cheiro, aqueles lábios molhados e tenros tocarem os meus.
Era a rapariga que mais amava neste mundo, à qual nunca faltei ao seu
rendez-vous. Era a rapariga que já conhecera há muito e que nunca me
arrependera de a ter conhecido. Rapariga humilde, simples e bela por quem me
apaixonei há uns anos. Rapariga simpática, doce e dócil, com quem o tempo
parecia correr enquanto tentávamos andar contra ele. Rapariga perfeita cujos
defeitos não eram inexistentes e eram bem únicos, o que a tornava única. Se
pensarem bem, meus caros, não são as qualidades e os “pontos a favor” que nos
tornam únicos, mas sim os nossos defeitos, pois é devido a estes que nos
diferenciamos das outras pessoas. Rapariga que errava, que sabia errar e que
reconhecia os seus erros perfeitamente humanos e naturais. Como já disse, há
muito que a conheci e há muito que me apaixonei por esta pessoa, mas também já
há algum tempo que não a via ou ouvia falar dela. Morto o beijo, passa-me a sua
mão na cara, despede-se e vai-se embora. Vejo-a a ir-se – mais uma vez – e a
desaparecer na imensa claridade no fundo da rua. Volto costas rumo ao banho que
ficou pendente, entretanto. Vou e penso «Porquê aquele pranto? Há algo errado
nisto… Bem, ainda bem que pude ajudar e fazê-la alegrar-se. Ainda bem que ela
sabia que eu a podia ajudar». E fiquei orgulhoso por isso. Do cimo das escadas
olhei uma última vez para o fundo da rua e reparei que ela ainda ali estava.
Parecia que estava envolta de uma aura cinzenta, uma aura pesada, perturbada e
duvidosa. Pensei que eram os meus óculos que estavam sujos por isso peguei
neles, limpei-os à minha camisola já um pouco suada e voltei a pô-los. Com uma reacção triste a vi, de mão dada. Um outro rapaz. De cabeça baixa, volto para
dentro, retomando o que estava disposto a fazer naquela manhã que parecia
normal.
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Nas nossas ruas, nas nossas vivências
Aclaram-se as luzes de quem não quer ver.
Despertam em mim vontade de sofrer
Inúmeras imagens, tamanhas sequências.
Voltamos a ver, voltamos a sentir
Beijos românticos de dois amados,
Beijos brancos tão esperados
Dos quais agora procuro fugir.
Mente à vida e à tua pessoa
E submete o futuro àquele momento.
Vives a vida, mas volta o vento
Para lembrar qual amor entoa.
Vagueiam agora, duas almas nuas
Às quais a vida voltará a sorrir.
Com ideias de voltar a abrir
Voltamos a fechar a vontade de sentir
Nas nossas vivências, nas nossas ruas.
terça-feira, 9 de abril de 2013
O Meu Soneto
Sopra forte o vento que passa
sem dar a esperança de uma aberta.
Apresso a escolha certa
que nao sei já o que faça.
Em meu redor tudo esmorece.
Ali murcham as flores,
aqui perdem-se as cores
por tudo o que a minha alma padece.
Mas aqui faz-se por sorrir
não sorrindo a ninguem sequer,
não deixando ninguém saber.
Pois ali tentam descobrir,
para tudo o que vier,
razão digna de se viver
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
A Carta
Seja essa a carta da tua alma e esta a carta do meu coração. Ao encerrar um capitulo, verifiquemos que não seja o ultimo, que não seja o que finalmente acaba com todo o suspense do nosso livro, da nossa historia : a vida, pois para esse, já temos título conhecido e assustador, irreversível e imprudente, emocional e imprevisível. Chamamos-lhe morte. Mas as crianças nunca morrem não é? Todavia, não é por isso que me ache uma criança, só para ser "imortal" no seu termo literal; gosto de ser criança - seja chamado adolescente ou jovem quase adulto - pois sou ingénuo e genuíno em meus sentimentos. A estes últimos chamas “pontos fracos”. E se os tornasses o teu ponto mais forte? E se os tornasses um exemplo para que não percorras mais caminhos onde não consigas inverter a marcha? Simplesmente, não os ignores. Por isso não faças dessa carta um desabafo da alma ou uma cujo remetente é a alma nem deixes em rascunho o que te enche o coração. Despeja-os num texto, sem sentido para o exterior mas que seja uma obra de arte a nível literário, para ti; que saibas onde estão as pontas soltas de uma historia e o contraste da realidade. Assim podes não esvaziar o a tua consciência, os teus sentimentos que residem no coração, mas decerto que ficarás receptiva a novos sentimentos. Se não o fizeres, podes nunca mais vir a sentir ou ouvir o que precisas, na altura certa, no momento certo, com a pessoa certa. Não podes viver nesse memorial nem continuar a andar dessa maneira, com um passo para diante e dois para trás.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Seja teu choro minha decisão
“Chora agora, sorri depois.
Vais ver que haverá um futuro próximo para nós dois.
Para nós dois haverá um futuro perto.”
É isto o que sentes? Será que é certo?
Falamos, gritamos.
Discutimos, sorrimos.
Sejam feitos assim os futuros que queremos.
Sejam percorridos assim os caminhos que escolhermos.
Sejam os sentimentos a mandar.
Seja o corpo a acatar.
Sejam os outros a acreditar que sentimos os que cremos.
Se deste jeito não o for, sozinhos viveremos.
Ou então acreditemos no que queremos e acabá-lo-emos por
sentir.
Amei-te, é certo. Mas ainda é difícil te resistir.
Teus lábios doces e serenos,
Meus lábios estreitos e pequenos
Ao tocarem-se, muita vez amor senti.
Agora sei e to afirmo,
De nó na garganta
Sem ares de mudança,
Que meu lugar é longe
de ti.
sábado, 29 de setembro de 2012
Uma vez,
Tive a rosa do amor,
na minha mão,
vermelha a cor,
que colhi e me apaixonei.
Mas por mero motivo
a desflorei.
Não sei se foi de mim
ou se por virtude própria
se desflorou,
mas algo se sucedeu
e a cor vermelha desvaneceu.
Outra igual nunca mais vi
apenas a sonhei ,
mas o vento não ma trouxe,
mas o vento não ma trouxe.
Ou então não a quis trazer.
Ou então não me quis dar
tamanha felicidade novamente,
com medo que voltasse a desflorar.
Agora do vento ja nada espero.
E do mundo?
Do mundo,
já muitas rosas vi,
poucas colhi,
e menos ainda conquistei.
Apenas por uma me apaixonei
e difícil vai ser esquece-la e,
saber que não vou voltar a tê-la,
na minha mão,
mata-me por dentro,
destrói-me o coração.
Subscrever:
Comentários (Atom)