terça-feira, 1 de outubro de 2013

Cegueira nos olhos de quem quer não ver

Se com simples olhos meus
nao vi seu ser em olhos tão belos, 
quem pensa entao sequer em vê-los
e conhecer algo que nao é dos seus?

Pensei, outrora, em poder ter-vos,
mais do que a vida e ser todo vosso.
Percebo agora a loucura que roço.
Leio-a  nas cartas que pensei em escrever-vos.

No entanto, por ser tao humano como sou,
me perdoo por errar de tal maneira,
pagando preço tao desonesto.

Recordo-me, pois, do olhar que me conquistou
com cujo efeito me perdi em tamanha cegueira, 
fazendo hoje com que desconfie de tudo o resto.

sexta-feira, 19 de julho de 2013



Verão de 2013


Oito da manhã e já se vê o sol no imenso céu limpo, vermelho e rezingão, chateando-nos a todos com este calor tremendo, preparando-nos para mais um dia soalheiro. Aqui ando eu, neste meu horário rotineiro de verão. Acordo. Levanto-me. Tomo banho de água fria, bem fresquinha, gelada, para acordar. Acreditem que às oito da manhã um banho gélido é muito reconfortante! Como sempre, abro as janelas para deixar a claridade diurna entrar dentro do meu quarto. Eu moro numa vivenda, germinada, uma casa simples. Dois andares. Como todas as outras casas é humilde e conquistada devido ao trabalho dos meus pais, comprada com dinheiro suado. Como todas as outras casas é um refúgio, o refúgio da minha família, é o nosso lar. Bem decorada e moderna, com algumas esculturas e muitas flores, coloridas, vivas. As paredes são brancas, cheias de quadros, retratos e bordados “ponto-cruz” que a minha mãe tanto gosta e admira. Quando se entra pelo corredor dentro sente-se como que uma tranquilidade, uma paz. Não digo isto por ser a minha casa, mas sim porque é o que realmente se sente. O meu quarto é azul. É o meu esconderijo, o meu buraco, a minha toca. É o meu mundo, sim! É onde muita coisa acontece e onde se pensa e se reflecte sobre o que se fez, o que se devia ter feiro, o que se disse e o que se devia ter dito. Da janela da divisão, para além da luz do dia, entrava também um ruído estranho, que não era habitual notar nas minhas rotinas matinais. Cheguei-me à varanda e olhei para a rua. Ali estava, sentada e encostada a um muro totalmente branco, sem uma única mancha, num pranto indescritível. Tentava-se esconder, enterrando a sua cabeça entre os joelhos flectidos. Consegui ver-lhe os olhos. Verdes. Contavam uma história tão triste, deixavam transparecer uma dor tão profunda que quase a sentia como minha. Quando dei por mim já estava à sua beira. Quão a minha presença era apreciada! Ela levanta-se, envergonhada, deixando escapar um sorriso verdadeiro. Como os seus olhos eram brilhantes, mas um brilhozinho de inocência que me fez sentir bem-vindo.  De repente, vindo do nada e de uma natureza repentina e incontrolável, um abraço. Um abraço tão apertado que me deixava sem uma única lufada do ar quente e abafado que sentíamos. Senti que a conhecia. Senti que não era a primeira vez que sentia aqueles braços a minha volta, aquele carinho e aquela ternura, aquele cheiro, que me era familiar. Estáticos. Sinto-me grato por este gesto de agradecimento e deixo-me corar. As minhas bochechas nunca estiveram tão quentes e tão vermelhas. Frente a frente, sem trocar uma única palavra, olhou-me nos olhos e eu retribuí com um olhar nos olhos dela, onde me perdi por uns instantes.

-Obrigada! – disse-me, um pouco mais feliz e aliviada, quebrando o silencio que se instaurara na rua.

Levantou-se uma brisa leve, que correu jovial, contagiando tudo o que encontrava. A rapariga sorri uma outra vez – como era lindo aquele sorriso branco e reluzente que quase parecia marfim; aqueles cabelos loiros a dançarem ao vento, iluminados pela luz do sol, reluzindo um brilho intenso e dourado; aquela face lívida e frágil que começava agora a tomar cor.

- Como te chamas? – pergunto-lhe eu envolvido em tamanha curiosidade. – Não sei o teu nome mas sinto que te conheço tão bem, como conhece a terra o individuo que cria, como conhece Pessoa todos os seus heterónimos.
Soltou uma última gargalhada e, num gesto simples e calmo, encostou os seus lábios aos meus. Aí sim, percebi que a conhecia. Aí sim, reconheci aquele cheiro, aqueles lábios molhados e tenros tocarem os meus. Era a rapariga que mais amava neste mundo, à qual nunca faltei ao seu rendez-vous. Era a rapariga que já conhecera há muito e que nunca me arrependera de a ter conhecido. Rapariga humilde, simples e bela por quem me apaixonei há uns anos. Rapariga simpática, doce e dócil, com quem o tempo parecia correr enquanto tentávamos andar contra ele. Rapariga perfeita cujos defeitos não eram inexistentes e eram bem únicos, o que a tornava única. Se pensarem bem, meus caros, não são as qualidades e os “pontos a favor” que nos tornam únicos, mas sim os nossos defeitos, pois é devido a estes que nos diferenciamos das outras pessoas. Rapariga que errava, que sabia errar e que reconhecia os seus erros perfeitamente humanos e naturais. Como já disse, há muito que a conheci e há muito que me apaixonei por esta pessoa, mas também já há algum tempo que não a via ou ouvia falar dela. Morto o beijo, passa-me a sua mão na cara, despede-se e vai-se embora. Vejo-a a ir-se – mais uma vez – e a desaparecer na imensa claridade no fundo da rua. Volto costas rumo ao banho que ficou pendente, entretanto. Vou e penso «Porquê aquele pranto? Há algo errado nisto… Bem, ainda bem que pude ajudar e fazê-la alegrar-se. Ainda bem que ela sabia que eu a podia ajudar». E fiquei orgulhoso por isso. Do cimo das escadas olhei uma última vez para o fundo da rua e reparei que ela ainda ali estava. Parecia que estava envolta de uma aura cinzenta, uma aura pesada, perturbada e duvidosa. Pensei que eram os meus óculos que estavam sujos por isso peguei neles, limpei-os à minha camisola já um pouco suada e voltei a pô-los. Com uma reacção triste a vi, de mão dada. Um outro rapaz. De cabeça baixa, volto para dentro, retomando o que estava disposto a fazer naquela manhã que parecia normal.

quarta-feira, 19 de junho de 2013



Nas nossas ruas, nas nossas vivências
Aclaram-se as luzes de quem não quer ver.
Despertam em mim vontade de sofrer
Inúmeras imagens, tamanhas sequências.

Voltamos a ver, voltamos a sentir
Beijos românticos de dois amados,
Beijos brancos tão esperados
Dos quais agora procuro fugir.

Mente à vida e à tua pessoa
E submete o futuro àquele momento.
Vives a vida, mas volta o vento
Para lembrar qual amor entoa.

Vagueiam agora, duas almas nuas
Às quais a vida voltará a sorrir.
Com ideias de voltar a abrir
Voltamos a fechar a vontade de sentir
Nas nossas vivências, nas nossas ruas.

terça-feira, 9 de abril de 2013

O Meu Soneto

Sopra forte o vento que passa
sem dar a esperança de uma aberta.
Apresso a escolha certa
que nao sei já o que faça.

Em meu redor tudo esmorece.
Ali murcham as flores,
aqui perdem-se as cores 
por tudo o que a minha alma padece. 

Mas aqui faz-se por sorrir
não sorrindo a ninguem sequer,
não deixando ninguém saber.

Pois ali tentam descobrir,
para tudo o que vier,
razão digna de se viver

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A Carta


Seja essa a carta da tua alma e esta a carta do meu coração. Ao encerrar um capitulo, verifiquemos que não seja o ultimo, que não seja o que finalmente acaba com todo o suspense do nosso livro, da nossa historia : a vida, pois para esse, já temos título conhecido e assustador, irreversível e imprudente, emocional e imprevisível. Chamamos-lhe morte. Mas as crianças nunca morrem não é? Todavia, não é por isso  que me ache uma criança, só para ser "imortal" no seu termo literal; gosto de ser criança - seja chamado adolescente ou jovem quase adulto - pois sou ingénuo e genuíno em meus sentimentos. A estes últimos chamas “pontos fracos”. E se os tornasses o teu ponto mais forte? E se os tornasses um exemplo para que não percorras mais caminhos onde não consigas inverter a marcha? Simplesmente, não os ignores. Por isso não faças dessa carta um desabafo da alma ou uma cujo remetente é a alma nem deixes em rascunho o que te enche o coração. Despeja-os num texto, sem sentido para o exterior mas que seja uma obra de arte a nível literário, para ti; que saibas onde estão as pontas soltas de uma historia e o contraste da realidade. Assim podes não esvaziar o a tua consciência, os teus sentimentos que residem no coração, mas decerto que ficarás receptiva a novos sentimentos. Se não o fizeres, podes nunca mais vir a sentir ou ouvir o que precisas, na altura certa, no momento certo, com a pessoa certa. Não podes viver nesse memorial nem continuar a andar dessa maneira, com um passo para diante e dois para trás. 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Seja teu choro minha decisão




“Chora agora, sorri depois.
Vais ver que haverá um futuro próximo para nós dois.
Para nós dois haverá um futuro perto.”
É isto o que sentes? Será que é certo?
Falamos, gritamos.
Discutimos, sorrimos.
Sejam feitos assim os futuros que queremos.
Sejam percorridos assim os caminhos que escolhermos.
Sejam os sentimentos a mandar.
Seja o corpo a acatar.
Sejam os outros a acreditar que sentimos os que cremos.
Se deste jeito não o for, sozinhos viveremos.
Ou então acreditemos no que queremos e acabá-lo-emos por sentir.
Amei-te, é certo. Mas ainda é difícil te resistir.
Teus lábios doces e serenos,
Meus lábios estreitos e pequenos
Ao tocarem-se, muita vez amor senti.
Agora sei e to afirmo,
De nó na garganta
Sem ares de mudança,
 Que meu lugar é longe de ti.

sábado, 29 de setembro de 2012

Uma vez,
Tive a rosa do amor,
na minha mão, 
vermelha a cor,
que colhi e me apaixonei.
Mas por mero motivo
a desflorei.
Não sei se foi de mim
ou se por virtude própria
se desflorou,
mas algo se sucedeu
e a cor vermelha desvaneceu.
Outra igual nunca mais vi
apenas a sonhei ,
mas o vento não ma trouxe,
mas o vento não ma trouxe.
Ou então não a quis trazer.
Ou então não me quis dar
tamanha felicidade novamente,
com medo que voltasse a desflorar.
Agora do vento ja nada espero.
E do mundo?
Do mundo, 
já muitas rosas vi,
poucas colhi,
e menos ainda conquistei.
Apenas por uma me apaixonei
e difícil vai ser esquece-la e,
saber que não vou voltar a tê-la,
na minha mão,
mata-me por dentro,
destrói-me o coração.